O Natal de Deus mais real que eu
25 de dezembro de 2009
“Depois disso, meu natal já era!”
Só afirma uma coisa dessas quem jamais soube o que foi de fato a experiência “natalina” de José, Maria e o recém-nascido.
Nossos natais são muito idealizados. Muito projetados. Muito utópicos e muito montados. Presépio e presepada.
O Natal de Deus aconteceu na realidade mais concreta e visceral.
“A vida como ela é!” - diria Nelson Rodrigues. Foi o Natal de Deus.
Sim, o Natal do Deus que muita gente duvida que seja real, foi mais real do que eu! Realidade chocante!
A Realidade Visceral
Menina-moça que aparece afirmando que o Espírito Santo colocou a sementinha dentro dela… Não é uma posição tão confortável e meiga, não é mesmo?
Homem-moço que não sabe se dá um tapa na noiva-esposa cínica, ou se a interna urgentemente no sanatório mais próximo. A terceira opção seria assumir a “cornice”. Mas o homem, por um sonho que teve, escolheu de bom grado ser “corneado” por Deus.
Confortável essa posição de José, não é?
Tiveram que andar milhas e milhas a fim de obedecer um decreto tirano que os obrigava a ir à cidade natal para um recenseamento. E Maria grávida de vários meses. Que adorável deve ter sido essa caminhada ou trajeto no lombo de jegue, não é?
O Caos da Chegada
Chegando na cidade de José - Belém da judéia, Cidade de Davi - tinham agora que enfrentar burocracia, fila e muita espera! Era muita gente pra ser atendida! Stress e incômodo puro!
Natal com stress? E combina isso? - pergunta o meu distraído leitor.
Mas eu não já disse que o Natal de Deus é mais real que eu?
Pois bem… Burocracia, fila, espera… E Maria já não podendo mais esperar. Bolsa rompendo. Daria a luz ali, nesse caldeirão de ansiedade, estranheza e mal-estar.
Só um probleminha a mais: a cidade estava abarrotada de gente. Cidadãos que vieram de todas as partes do país. Não havia vaga em nenhuma hospedaria.
“E Deus não abrirá uma porta onde não há porta?” - pergunta o que tem fé demais.
Nenhuma porta aberta. Todas fechadas.
O Refúgio Improvável
Até então eles tinham dado o jeito. Um homem e uma mulher grávida podem aguentar muito desconforto. Sereno, vento, chuva, frio… Mas agora com um neném? Merece um quarto quentinho, acolhedor, limpo.. Um ninho.
Não havia quarto. Mas havia a estrebaria.
Que natal reluzente hein? É o natal dos sonhos de qualquer um, não é! Ora eu pensei que era. Não é por isso que reproduzimos esta cena horrível com nossos presépios tão lindinhos?
Acabou o natal deles? Que nada. Só estava começando.
A Graça Inesperada
De repente amigos pastores do campo, desconhecidos, chegam. A melhor Graça de Deus é sempre um algo inesperado.
Graça que se roteiriza e se cronometra não tem tanta graça assim.
E quando menos esperavam, solitários no lugar de alimentação de animais… surpresa!
Aparecem também uns estranhos orientais. Viram uma estrela no céu que os guiara até ali.
E vai havendo companhia, felicitações, louvor, amizade e vínculo da perfeição. O pós-parto vai ficando iluminado de humanidade simples, solidária, fraterna e real.
O Que o Natal de Deus Continha
- Distância de casa e da família…
- Humilhação da submissão a ordem de um governador tirano e opressor…
- Pouca luz, comida, conforto e amigos…
- Rejeição e falta de piedade dos gerentes e donos das hospedarias…
- Céu silencioso e aparentemente vazio… Sem portas abertas. Só portão de curral.
O Natal de Deus tinha tudo o que muita gente, experimentando, diria: “Não há chance de haver natal esse ano! Acabou o meu natal!”
Mas no Natal de Deus havia presença de Deus Conosco, presente, no meio do turbilhão com a gente.
A Verdadeira Realidade
No Natal de Deus havia estrela no céu, significado.
No Natal de Deus havia coral de anjos que antecipavam a grande herança e felicidade dos homens que tivessem boa vontade para viver e crêr. Boa vontade própria? Não. Consciência da boa vontade de Deus e seu bem-querer por eles!
No Natal de Deus havia provisão de amigos. Não os amigos do script pré-fabricado. Não. Os amigos do caminho, da rua, da imprevisibilidade… Desconhecidos irmanados pelo poder do louvor, da fé e da gratidão.
No Natal de Deus bois e vaquinhas ocupavam os lugares que Reis e Rainhas desejariam ocupar, como testemunhas daquele evento histórico sem precedentes.
No Natal de Deus não havia presépio ou presepada. Havia realidade. Havia a Vida de um Deus que não é utópico, alienado, alienante, fantasioso, isolado, insensível, impermeável ou auto-protegido.
Não. Irreais somos nós e nossas projeções de vida e mundo. Inclusive nossas projeções a respeito do Deus que duvidamos que seja real…
Deus no entanto, é real. E o Natal de Deus é infinitamente mais real que eu.
Se Deus não é real, o menino dormindo debaixo do viaduto também não é. E é ali que ele escolheu estar e ser servido, adorado, descoberto, amado, manifesto, significado, presente. Pra justiça, alegria e esperança de todo o que crê.
O Natal Começa Agora
E você? Pensando aí que o Natal acabou? Pereceu? Babou? Bichou?
Caia na Real! O Natal nem começou! Começará agora!
Bem mais real do que voce podia imaginar. Aliás… não imagine. Viva a realidade do Natal de Deus em você!
Esteja você no lugar de qualquer personagem dessas, vá viver o natal! Seja você José, Maria… Seja você o pastor do campo enviado a algum lugar a fim de fazer companhia… Seja você um sábio oriental, que chegará com louvor, presente, afirmação, testemunho e solidariedade. Seja você a mosca do cocô da mimosa, vaquinha do estábulo… não importa!
O Natal sempre é feliz, quando se sabe e se crê que ele adentrou a nossa Realidade mais desnudada. Veio pra estar, ficar, permanecer. Emanuel: Deus Conosco!
Deus que é Deus de todo aquele que, sentindo nos pés a textura e espessura de cada uma das afiadas pedras do caminho da realidade, vai aprendendo a lê-las com o “código braille” da fé. E o que se lê o tempo todo é:
“Eu estou com você. Não temas porque eu sou contigo. Eu te amo. O Senhor proverá. Confia! A gente vai junto. Haverá um bom futuro e não será frustrada a tua esperança”.
Feliz Natal! Real!
Marcello Cunha